
TEXTO: Aida Franco de Lima
Em um País em que o Sertanejo Universitário faz escola, a música erudita parece soar algo distante da realidade cotidiana. E pensar que, por exemplo, a ópera surgiu como forma de entretenimento para a população e ao longo dos anos passou a ser acessível apenas a uma elite. Mas em Cianorte, um ponto fora da curva tem feito a diferença na vida dos integrantes do Coral e Orquestra Das Alte Erbe, bem como daqueles que assistem seus espetáculos. Normalmente, um coral e orquestra com tal repertório, para apreciar ao vivo, é possível encontrar somente em capitais como Curitiba e São Paulo. O Noroeste do Paraná, mais exatamente Cianorte, possui uma joia preciosa, lapidada desde 2018, que precisa de apoio para brilhar ainda mais!
Profissionais das mais variadas áreas uniram-se em torno da música erudita e têm surpreendido e encantado o público, com o talento que se ‘esconde’ no terno de um advogado, nos livros dos professores, na correria de empresários, nos afazeres das donas de casa e estudantes, entre outros. À frente, na regência, está o maestro Nicolás David González Martínez. Aos 37 anos, ele que nasceu em Las Condes, Santiago, no Chile e se criou em Buin, região metropolitana, já adquiriu ‘cidadania cianortense’, desde que veio morar por essas bandas no ano de 2018.
Nicolás e os integrantes realizam um trabalho de Hércules, a cada ensaio, a cada apresentação. E para compreender o nascimento do Coral e Orquestra Das Alte Erbe, precisamos, também, conhecer a história de seu regente, Nicolás, recuar no tempo, e chegarmos ao momento presente.
CRISE NA ARGENTINA
Era o ano de 2016 e veio uma crise muito feia com Maurício Macri na presidência da Argentina. Nicolás trabalhava para o Governo, em um programa que se chamava ‘Orquestas y coros del Bicentenario nos Bairros’. Tratava-se de cópia do fabuloso projeto venezuelano que se chama ‘El Sistema’, replicado em muitos países latino-americanos e europeus. “Iam profissionais da música até uma favela, formava corais, orquestras”, relembra o maestro Nicolás.
Em Buenos Aires foram aproximadamente 600 regentes de orquestra de coro que perderam o trabalho da noite para o dia, depois que Macri cortou a verba destinada a pagá-los, Nicolas era um deles. Ele ainda insistiu mais um tempo na Argentina e decidiu voltar para o Chile.
Enquanto isso, aqui no Brasil, em 2018, o biólogo e empresário André Emmer Rodrigues, juntamente com o advogado Bruno Bilk Mazia, reuniam amigos que ensaiavam em sua casa as primeiras canções que formariam o repertório de um coral, de músicas eruditas, inédito em Cianorte.
Foi nessa mesma época que Bruno e André viajaram para Buenos Aires e surgiu a ideia de Nicolás residir em Cianorte. “Bruno me convidou para vir pra Cianorte e falou que o coral que aqui existia era amador e não chegava perto do amadorismo de Buenos Aires”, relembra Nicolás, carinhosamente chamado de Nico. Agora, após quatro anos, os frutos começam a ser colhidos.

(Foto: Renan Henrique Lima dos Santos)

Como eu já conhecia o Bruno e o André e eles sabiam que eu tinha um conhecimento musical, eles me chamaram para assistir a um ensaio deles. No começo, pouquíssimas pessoas ensaiavam na sala do Bruno. E essas pessoas, no início, também tinham algum conhecimento musical, nada profundo, mas sabiam alguma coisa. O trabalho foi sendo divulgado e crescendo. Algumas partituras, algumas músicas, o Nico passou para eu tocar, para fazer o acompanhamento com ele e ajudando na parte da teoria musical, pois conforme o grupo foi crescendo entraram pessoas que não tinha conhecimento de música e fui ajudando nessa parte também. Sílvia hoje, em virtude de projetos pessoais, não está mais no Coral, mas ajuda com divulgação e os integrantes sabem que quando precisarem, podem contar com ela. Além de tocar, também comecei a cantar e foi um grande desafio. Nico fez uma audição para ver meu tom de voz. Entrei cantando como contralto. É muito valioso todo o conhecimento musical que não tive ao longo de anos estudando piano, tive ali com eles. Ouvir eles cantando e o André Bertoncini tocando é uma coisa de arrepiar mesmo.
SOLTANDO A VOZ
Quando Nicolás chegou a Cianorte, começou a recrutar pessoas interessadas em fazer parte do coral, isso foi em fevereiro de 2018. O grupo inicial foi formado por umas oito pessoas, entre familiares e amigos em comum, de Bruno e André.
Em julho daquele ano, 2018, surgiu a possibilidade de cantar três músicas, antes da missa do aniversário da Cidade. Naturalmente, todos estavam muito nervosos e ansiosos para a estreia.

Um reforço extra veio de músicos de Maringá, que foram convidados a juntar-se ao Das Alte Erbe. “Esse pessoal de Maringá ficou surpreso que em quatro meses conseguimos um padrão muito erudito para a região e que o nível já era muito bom, cantando bem, indo para frente”, relembra Nicolás.
Depois dessa apresentação inicial, sempre chegava gente para perguntar como entrava, como era a participação e, assim, o número de integrantes só aumentava.













O QUE É NECESSÁRIO PARA PARTICIPAR DO CORAL?
A pergunta que não cala e sempre é feita por aqueles que sonham em cantar, mas privam-se por determinados limites. Com sabedoria, o maestro Nicolás, explica de modo didático que o essencial é dedicação.
“Se você fala, você canta. A questão do canto é puramente auditiva. Não tem relação com o tom de voz. É educação auditiva. O quesito básico é a afinação. E ela é resultado de uma relação interna entre o cérebro, o ouvido e a criação de som através das cordas vocais. Isso que se aprende desde a infância é uma coisa que se educa. Dizer: ‘Não tenho voz para cantar’… É questão de educação auditiva. Não tem requisito. Mas sim o que peço em troca é muito estudo. Primeiro porque o repertório não é fácil. Escolas amadoras europeias fazem. Então o único requisito é o estudo e tentar se aprimorar para a atividade que está desenvolvendo. No começo é importante fazer aulas de canto e tentar participar de algum minicurso, aulas rápidas de teoria e leitura, para compreender uma partitura, saber onde cada um tem que ler. É um pré-requisito para quem entra no coral. Precisa bem pouco de talento e mais dedicação, constância e estudo. Isso basicamente para participar do coral.”
Maestro Nicolás

Ao traçar uma análise sobre o universo da música erudita no Brasil, Nicolás destaca que há uma cadeia de problemas, que a formação do regente no Brasil está muito atrasada e nota similaridades que percebeu quando ainda morava no Chile, mas que hoje está mudando. “Mas aqui no Brasil está demorado, principalmente no interior. Mas em algumas cidades de Minas, Manaus que por incrível que pareça está no mesmo nível do eixo Rio São Paulo, na questão de cantores líricos e regentes, mas no interior do Brasil é bem triste e bem pobre, porque falta apoio para esse setor”, explica.
Atualmente são aproximadamente 60 pessoas das mais diversas idades e formações, evoluindo no repertório, apresentações próprias, tornando os eventos mais atrativos para a população e a si mesmas.
VALOR DA ARTE
Durante a pandemia que trancou o mundo dentro de casa, ou ao menos houve a tentativa, os ensaios foram reduzidos a 1/4 dos integrantes por vez, todos com máscara e protetor facial. As apresentações ficaram por conta do concerto gravado (sem público), possibilidade através da Lei Federal Aldir Blanc.
O Coral está em uma etapa que agora, pós-pandemia está se reestruturando, projetando novos passos. Independente, aguenta firme e forte, primeiro porque o maestro não tem como fonte de renda principal o seu trabalho na regência do Coral. Ou seja, investe seu talento e tempo, sem benefícios financeiro algum. Mas ninguém vive de prana, a energia vital, e nem todos podem abrir mão de um salário fixo para dedicar-se a um trabalho voluntário, por mais que a pessoa queira. Assim, o Coral e Orquestra Das Alte Erbe tem contratado 03 outros profissionais, sendo eles as sopranos Daniele Englerth e Ariadine Gomes, e o pianista Yuri Prieto. “Lutamos mês a mês para conseguir honrar esses salários”, destaca Nicolás. “Temos uma despesa fixa mensal, financiado por diversas empresas da Cidade que dão um valor mensal, que confiam no trabalho do grupo”, destaca.
Com a instabilidade econômica alguns empresário não conseguiram continuar ou avisaram que terão que diminuir o valor do aporte. Mas os integrantes não desistem e buscam novos apoiadores que vistam a camisa do Coral, enquanto nos brindam com seus talentos. Empresas que queiram colaborar de algum modo, podem entrar em contato pelas redes sociais, email, ou integrantes do Coral.




SÓ SE AMA O QUE SE CONHECE

Como furar a bolha das músicas e dancinhas do TikTok? Como é que podemos querer que as pessoas apreciem outros ritmos se não oportunizamos isso a elas? Santo Agostinho dizia que “Só se ama aquilo que se conhece”. E uma alternativa surgiu: concertos didáticos, que são mini concerto em que cada música é explicada para o público como é a composição, suas características, aspectos musicais dentro da canção e depois a apresentação. Até o momento foram três deles e para o ano de 2022 a proposta deve ser repetida.
2022 promete!
Um ano com boas expectativas diante de um projeto aprovado através da Lei Roaunet que se concretizará em um concerto muito grande, com entrada franca, agendado para 17 de Dezembro, onde estarão reunidos 40 músicos da orquestra, mais dois solistas e um coro de cerca de 60 pessoas, tal qual ocorre nos palcos europeus. “Teremos coro de ópera, com árias solistas, ou seja canções solistas, um deles o tenor Daniel Gonzales, de Madrid e a soprano, que já esteve aqui em 2019, Sônia Vasquez”, antecipa o maestro Nicolás. Daniel canta no Teatro Real de Madrid. E Sônia é uma das principais sopranos do Teatro Municipal de Santiago.
Também estão previstas duas palestras abertas pra comunidade, provavelmente em escola pública, destinada a alunos e professores para falar desse desconhecido mundo da ópera que soa tão distante. Uma das iniciativas de Nicolas para instigar o gosto pela música erudita é convidar alguém para reger, por alguns minutos, ainda que não saiba. “É um jeito de atingir a população. Fiz isso em 2019, e normalmente o fazemos em igrejas que permitem tal trabalho. Acredito que em 2022 dará certo repetir essa ação”.
Currículo de peso

(Foto: Divulgação)
Nicolás considera como parte importante de sua formação o fato de ter estudado com a maestrina Silvia Sandoval, do Chile, que proporcionou o primeiro contato com a música coral erudita, na faculdade, na Universidade do Chile. Uma das principais referências de regência e sonoridade coral no país natal de Nicolás.
Também, o maestro Mariano Moruja, em Buenos Aires, o formador deste regente maduro e moderno. Moruja, foi o professor de Nicolás entre os anos de 2010 até 2016 no Conservatório Superior de Música Manuel de Falla. Moruja é o principal referente de regência para repertório contemporâneo e moderno, ele também desenvolve profundamente os princípios de regência e profissionalização dos estudantes. O Maestro Moruja é um dos principais formadores de novas gerações de regentes preparados para as exigências atuais no contexto profissional.
Outro ponto essencial em sua formação foram seus estudos na Alemanha, em uma cidade chamada Braunschweig, na Capital homônima, onde permaneceu por um ano, na catedral de Braunschweig, como assessor do regente, do coral de crianças.
Depois como experiências de trabalho no Teatro de Buenos Aires, assistente de regente do maestro Mariano Moruja, que regia as obras, no Centro Cultural Kischiner, um espaço relativamente novo. Agora, na última semana de maio, no dia 27, foi convidado a participar como Regente Convidado em evento do Theatro Municipal de São Paulo, em virtude de seu excelente desempenho. Os concertos acontecerão nos dias 29 e 30/06 e mais informações podem ser adquiridas na página do evento.
QUER PARTICIPAR?
É diverso, independente, com diversidade cultural e religiosa. O que fala mais alto no grupo é o respeito. Um grupo divertido e legal. Ensaia todos os sábados no Hotel Cianorte Diamond, que é um patrocinador fixo, das 16:00 até 18:30 horas. Idade: acima de 15 anos. Para participar, é necessário presenciar um ensaio inteiro e fazer teste com o maestro.
LEIA MAIS
DAS ALTE ERBE – A ANTIGA HERANÇA
A origem do nome do Coral e Orquesta Das Alte Erbe, faz referência a essa herança que temos dos compositores, as partituras. A música sabemos dela por causa de sua escrita, as partituras. Mas antes delas, as partituras, existiram as neumas, usadas para escrever o canto gregoriano. Mas antes disso não existia música? Existia sim. Os egípcios escreveram em paredes e artesanato, os moros em pedras, então temos muita coisa pra ser investigada, uma tarefa dos musicólogos.
ESCOLHA DO REPERTÓRIO
O critério é sempre no contexto erudito/acadêmico: ou seja, se for feito repertório popular, que seja arranjado por um compositor com argumentos sólidos para fazer. E a escolha é sempre de acordo com os projetos. Por exemplo atualmente, o grupo está muito focado no projeto de dezembro, cujo repertório é tudo ópera e é muito difícil.
HINO DE CIANORTE
Os músicos também estão preparando o Hino da Cidade que foi enviado para ter seu arranjo melhorado, por meio do talento de Moisés Mendoza, um famoso compositor chileno.
PRINCIPAIS MÚSICAS
Gloria, de Antonio Vivaldi
Mais vídeos no canal oficial
Patrocinadores:
Brilho do Sol Cactos e Suculentas
UNIVISION Clínica oftalmológica
Cavalaro Cascardo & Bilk Advogado
Hotel Cianorte Diamond
Apoiadores:
Nodinha Produções
Drika Produções
Regência Produções
Marco Futata Fotografia



Coral lindo demais! Trazendo a linda música erudita para o convívio dos Cianortenses! Uma honra para todos nós!
Uauuuu,q noticia maravilhosa! Qta coisa q fica longe do conhecimento dos cidadãos .Parabéns pela matéria parabéns a cada um q abraçou a causa para q ela se tornasse possível.
Majestoso e divino! Das Alte é um pedacinho do céu!