Artistas, autistas: exposição revela talentos do Colégio Igléa, em Cianorte – Paraná

O brilho nos olhos, a admiração... Mesmo com máscaras, era visível o sorriso nos rostos de quem teve a oportunidade de ver de perto a exposição  "Lugar de austista é em todo lugar - A arte iguala potenciais"
 (Foto: Aida Franco de Lima)

Era uma quarta-feira, 30 de março, com cara de outono, quando muitas folhas cobrem o chão e as máscaras de um esperado final de pandemia começam a cair… Em uma sala do Colégio Estadual Igléa Grollmann os olhos dos jovens expectadores brilhavam. Entravam na sala e diziam: “Caraca mano!” “Tô chocada!” “Que coisa mais linda!” “Que fod** véi!”. As gírias, o olhar de felicidades, a cara de espanto que se sobressaia pelas máscaras eram dos alunos que conheceram de perto alguns desenhos de colegas que muitas vezes parecem distantes… E estão ali, coladinhos, quietinhos, na carteira ao lado, em seu mundinho, com ideias geniais, fantásticas. Talentos incríveis. Focados. Hiperfocados. Meninos e meninas com Transtorno do Espectro Autista que amam desenhar! Eles, juntos com outros colegas que se conectam pelo gosto pelos lápis e pincéis, expuseram seus talentos e mostraram que a arte iguala a todos! Na exposição “Lugar de austista é em todo lugar – A arte iguala potenciais”, não havia um selo que separava um dos outros. A exposição foi uma mostra de quantas joias preciosas Cianorte tem para apreciar! O trabalho foi organizado pela equipe de atendimento especializado, professores de Arte, funcionários e estudantes.

A exposição é um choque de realidade para conclamar o poder público e sociedade civil a valorizar e dar suporte a esses artistas. Cursos, oficinas, exposições, incentivo com técnicas que ampliem com trabalhos que aproveitem

A professora Ana Floripes Berbert Gentilin é coordenadora do Projeto Identidade X Preconceito. As atividades coletivas e individuais são desenvolvidas com todas as turmas, de forma interdisciplinar desde o ano de 2013. O mesmo faz parte do projeto político pedagógico (PPP) do Colégio Estadual Igléa Grollmann – EFM e todos os profissionais da educação e estudantes participam ativamente. O propósito é capacitar profissionais da educação, disseminar conteúdo científico sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e síndrome de Down, ofertar atividades relativas às habilidades socioemocionais e combater ao bullying por meio de ações previstas no projeto citado. A exposição de Arte do ano de 2022 visa apresentar as potencialidades dos estudantes com e sem o TEA. A mesma faz parte das atividades referentes ao Dia Mundial de Conscientização do Autismo. Trata-se de um dos objetivos específicos definidos no projeto Identidade vs. Preconceito. O geral é contribuir para a construção de novas práticas atitudinais por meio do conhecimento científico, com o intuito de se facilitar o processo de escolarização de estudantes sem e com TEA.


Mayara Rodrigues, 17 anos. Ela domina a arte de transformar o papel em branco em imagens fantásticas. Ela reproduziu a imagem original do Instituto Maurício de Sousa, para lembrar que lugar de autista é em todo lugar (Foto: Ana Floripes)
Mayara, reproduzindo a imagem para lembrar que lugar de autista é em todo lugar, com base na imagem original do Instituto Maurício de Sousa (Vídeo: Divulgação)

No sexto ano, Ana Floripes percebeu que Mayara tinha altas habilidades. Mas uma série de fatores, como atendimento a outras turmas, pandemia, tudo isso levou Ana para outros trabalhos. Mas em 2022, Ana voltou a atuar com um estudante com TEA da mesma turma de Mayara e quando viu sua produção, Ana se assustou! Ficou extasiada com o talento da garota. No mesmo momento, sabendo que ali há um aluno com TEA – Transtorno do Espectro Autista e Mayara, com altas habilidade, ambos com hiperfoco no desenho surgiu a ideia de realizar uma exposição. “Porque quando eu mostrava para os alunos desenhos diversos e perguntava se sabiam identificar de quem eram os desenhos, se era de alguém com ou sem TEA, os estudantes respondiam que não. Porque a arte iguala, coloca todos em pé de igualdade”, explica Ana. A diretora Cristina Aparecida topou a ideia na hora.

AO FIM DA EXPOSIÇÃO, COM O TRABALHO COLETIVO TUDO FOI RAPIDAMENTE REORGANIZADO

(Fotos: Ana Floripes)

Ana Floripes explica que anualmente é definido o projeto a ser desenvolvido, dentro de um projeto maior denominado Identidade X Preconceito. Por um mês Ana foi garimpando os tesouros em formato de desenho que os alunos, alguns timidamente, lhe traziam. E durante a exposição outros desenhos surgiram, demonstrando a necessidade de uma segunda edição da exposição, com desenhos que apareceram após o prazo de entrega. Ana Floripes destaca que a professora de Arte, Fernanda Priscila da Fonseca Andrade da Silva, teve participação fundamental, pois foi com base em seu conhecimento que foi dado o tom da exposição. O trabalho, realizado de forma coletiva, teve como carro chefe a disciplina de Arte. Ana Floripes, Ana Tudisco e Regiclei são professoras de apoio educacional especializado (PAEE) e acompanham estudantes no espectro autista em sala de aula. Deste modo, com um ‘pedaço’ da dedicação de cada um, e apoio da diretoria, foi possível transformar uma sala de aula em uma verdadeira galeria.

Da esquerda para a direita, Ana Floripes Berbert Gentilin – Professora de Apoio Educacional Especializado; Ana da Silva Tudisco – Professora de Apoio Educacional Especializado. Fernanda Priscila da Fonseca Andrade da Silva – Professora de Arte; Cristina Aparecida Silva dos Santos – Diretora e Regiclei Sartori do Prado – Professora de Apoio Educacional Especializado (Fotos: Divulgação)

ATIVIDADE PRÁTICA COM ARTISTA NATO

Além dos desenhos e telas dos alunos e professores, na exposição “Lugar de autista é em todo lugar”, uma espaço especial foi dedicado às obras do artista Carlos Colanzi. Focado em desenhos hiperrealistas ele encantou os alunos com suas obras e a todo o tempo falava do que é o brilho nos olhos. De quando conclui uma obra e quando aprecia o resultado do trabalho de outro também. Uma mesa foi organizada para expor seus trabalhos enquanto em uma outra o mesmo interagia com alguns dos expositores. E aos poucos, papeis em branco passavam a ganhar cores, formas e vida, com os alunos inspirados em sua arte e com o mesmo destacando seu encantamento diante de tantos jovens talentos. Importante destacar que Carlos, apesar da perfeição com o qual retrata as faces dos personagens mais conhecidos, revelou que nunca fez uma exposição individual em Cianorte. Falta de talento que não é!

Parte dos desenhos hiper realistas de Carlos Colanzi (Fotos: Aida Franco de Lima)

Famílias, representantes do Núcleo Regional de Educação – NRE, amigos, Secretário de Cultura, mídia… A comunidade compareceu em peso para prestigiar os trabalhos apresentados e todos saíram encantados com a diversidade de estilos, riqueza de detalhes e com uma certeza: Cianorte tem um tesouro que precisa ser lapidado, com incentivo e infraestrutura, para ser apreciado por toda a sociedade. (Fotos: Ana Floripes)

A arte iguala os expositores. Não importa se com ou sem TEA. Joias preciosas que brilham através dos lápis e pincéis…
(Vídeo e Fotos: Aida Franco de Lima e Ana Floripes)

About the author

AIDA FRANCO DE LIMA
Doutora em Comunicação e Semiótica, jornalista, professora, escritora, ativista ambiental.



Guardador de palavras da Gabi

Comments

  1. Que trabalho maravilhoso! Parabéns aos idealizadores, à todos os que contribuíram para que esse momento pudesse ser uma oportunidade de apresentação dos talentos que muitas vezes passam despercebidos ou não são valorizados como deveriam! É preciso dar visibilidade e integrar nossos estudantes junto à comunidade, quebrando preconceitos e rompendo barreiras! Foi show 👏👏👏👏🌹🌹🌹

  2. São momento como esses que sinto uma saudade imensa da casa onde se aprende muito, principalmente sobre: amizade, companheirismo dedicação, igualdade, respeito ao próximo, onde nos tornamos mais humanos. Parabéns a todos que contribuíram para que ele momento acontecesse.

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